A preservação da memória e da identidade cultural foi o centro das atenções na Unidade Escolar Alexandre Cardoso Homem, localizada na zona rural de São Miguel do Tapuio. Por meio do projeto “Cores da Nossa História”, estudantes e professores desenvolveram uma iniciativa voltada ao resgate de fatos, personagens e histórias que ajudaram a construir a trajetória do município e de suas comunidades.
A proposta pedagógica transformou relatos históricos em uma série de jornais temáticos inspirados nos antigos periódicos impressos, reunindo pesquisas, entrevistas, memórias familiares e narrativas transmitidas de geração em geração. O resultado foi um rico acervo de histórias locais que valoriza a cultura, a identidade e o patrimônio imaterial de São Miguel do Tapuio.
Entre os temas abordados pelos estudantes esteve a própria formação histórica do município. Um dos jornais produzidos apresentou uma linha do tempo sobre São Miguel do Tapuio, desde a presença dos povos indígenas Tapuias, passando pelo processo de povoamento, pela contribuição de Dona Rosaura Muniz Barreto para a formação da cidade, até os avanços que marcaram o desenvolvimento do município ao longo dos anos.
O trabalho também destacou a importância de figuras que deixaram marcas profundas na história local. Um dos personagens retratados foi Dona Rosaura Muniz Barreto, considerada uma das mulheres mais importantes da história do município. Reconhecida como grande proprietária rural, ela teve papel decisivo na formação da cidade ao doar parte de suas terras para a construção da Igreja Matriz de São Miguel Arcanjo, além de contribuir para a consolidação do núcleo urbano que deu origem ao município. Sua trajetória de coragem, generosidade e liderança foi retratada pelos estudantes por meio de relatos preservados na tradição oral da região.
Outra personagem homenageada foi Dona Carmelita Rodrigues da Silva, lembrada por sua dedicação à família, pela fé e pelo espírito empreendedor. Conhecida por manter uma tradicional banca de bolos e guloseimas no centro da cidade, Dona Carmelita tornou-se uma referência afetiva para várias gerações de são-miguelenses. Sua história revelou aos alunos como o trabalho simples e o acolhimento ao próximo podem construir legados duradouros dentro de uma comunidade.
O projeto também abriu espaço para a valorização das histórias das comunidades rurais. Um dos jornais trouxe a trajetória de Sebastião Araújo Monte, morador que se tornou símbolo de trabalho e perseverança. Durante décadas, seu conhecido “carro de horário” serviu como principal meio de transporte para moradores das comunidades Jenipapeiro, Mato Escuro e Coqueiro, em uma época em que o acesso à cidade era difícil e as estradas apresentavam grandes desafios.
Além de transportar passageiros e mercadorias, Sebastião Monte ficou conhecido por sua habilidade no conserto de rádios, televisores e outros equipamentos eletrônicos. Seu trabalho ajudava a manter a comunicação e o entretenimento em diversas localidades da zona rural, aproximando famílias das notícias, da música e das novidades tecnológicas da época.
A pesquisa dos estudantes também destacou a parceria entre Sebastião Monte e seu filho, Antônio Félix do Monte Neto, o Netinho, que juntos desenvolveram uma experiência inovadora para o período. Utilizando equipamentos adaptados e muito conhecimento prático, pai e filho criaram uma espécie de rádio comunitária improvisada que alcançava diversas comunidades da região, levando informações, músicas, recados e momentos de interação para moradores que viviam em áreas sem acesso a meios modernos de comunicação.
Segundo os relatos reunidos no projeto, as transmissões eram realizadas a partir de um quarto da residência da família na comunidade Mato Escuro, tornando-se um importante ponto de encontro e integração social. A iniciativa marcou uma geração e permanece viva na memória dos moradores como um exemplo de criatividade, solidariedade e compromisso com a comunidade.
O projeto foi desenvolvido com a participação ativa dos estudantes e contou com a coordenação e orientação das professoras Ana Veyda, Andressa, Fabiana, Eudiane e Marisa Thaliny, responsáveis pela execução das atividades pedagógicas, pesquisas e produção dos materiais apresentados. O trabalho reforçou a importância da escola como espaço de valorização da cultura local e de preservação das histórias que formam a identidade da comunidade.
Mais do que uma atividade escolar, a iniciativa se transformou em um verdadeiro exercício de preservação da memória coletiva, permitindo que as novas gerações conheçam e mantenham vivas as histórias, os costumes e os exemplos de pessoas que fizeram e continuam fazendo parte da história de São Miguel do Tapuio.